Morar sozinho não é um perfil de consumidor: o que os novos lares brasileiros dizem ao mercado imobiliário

Quase 1 em cada 5 lares brasileiros tem apenas um morador. Por que esse público exige mais do que um único modelo de imóvel compacto.
Por Laila Melo 8 de outubro de 2026 08 min de leitura

Quando pensamos em uma pessoa que mora sozinha, qual imagem aparece primeiro?
Para muita gente, provavelmente um jovem adulto, saindo da casa dos pais, começando a carreira e procurando seu primeiro apartamento.
Esse consumidor existe. Mas os dados mais recentes mostram que ele representa apenas uma parte de uma transformação demográfica muito maior.
Em 2025, o Brasil chegou a cerca de 15,6 milhões de pessoas vivendo sozinhas, segundo dados da PNAD Contínua do IBGE. Os domicílios unipessoais passaram a representar 19,7% de todos os domicílios do país.
Na prática, quase um em cada cinco lares brasileiros já é ocupado por apenas uma pessoa. Em 2012, essa proporção era de 12,2%.
O crescimento é expressivo. Mas, para o mercado imobiliário, existe um segundo dado ainda mais interessante.
Quem são as pessoas que moram sozinhas?
A distribuição etária ajuda a desmontar alguns estereótipos. Entre as pessoas que vivem em domicílios unipessoais:
Entre 15 e 29 anos | 12% |
Entre 30 e 59 anos | 46,8% |
60 anos ou mais | 41,2% |
Ou seja: quase nove em cada dez pessoas que moram sozinhas têm 30 anos ou mais. Isso muda bastante a conversa.
Morar sozinho pode representar independência no início da vida adulta. Mas também pode acontecer depois de uma separação, pela saída dos filhos de casa, por mudança profissional, por escolha pessoal ou em uma fase mais madura da vida.
São histórias diferentes. E histórias diferentes produzem necessidades diferentes.
Um dormitório não significa uma única persona

É justamente aqui que acredito que existe um ponto importante para incorporadoras, profissionais de marketing e equipes comerciais.
O mercado precisa criar segmentações para tomar decisões. O problema começa quando essas segmentações viram simplificações.
“Mora sozinho” não deveria automaticamente significar jovem, solteiro, primeiro imóvel, pouco espaço e poucos pertences. Pode significar isso. Mas pode significar inúmeras outras coisas.
27 anosPode valorizar proximidade do trabalho, mobilidade e áreas compartilhadas. | 48 anosPode precisar de espaço para home office, receber familiares ou manter uma vida profissional intensa. | 70 anosPode priorizar acessibilidade, segurança, manutenção fácil, serviços próximos e autonomia. |
Esses exemplos não são regras. São justamente perguntas que pesquisa, desenvolvimento de produto e atendimento precisam investigar.
Enquanto os lares mudaram, os apartamentos também ficaram menores
Existe outra transformação acontecendo em paralelo. Segundo o Anuário do Mercado Imobiliário do Secovi-SP, a área útil média anual dos imóveis de um dormitório em São Paulo caiu pela metade em 15 anos.

Não podemos concluir apenas por esses números que um fenômeno causou o outro. Mas eles mostram duas transformações simultâneas: os arranjos domiciliares estão mudando e o produto imobiliário também.
O desafio é garantir que a redução de metragem não seja confundida com uma redução da complexidade do consumidor.
Um apartamento menor continua precisando resolver uma vida inteira.
O que muda para o desenvolvimento imobiliário?
Talvez seja necessário ampliar as perguntas feitas ainda na concepção do produto. Em vez de apenas “qual é a idade do comprador?”, podemos perguntar:
01 Como essa pessoa utiliza a casa?
02 Ela trabalha de casa? Recebe pessoas?
03 Tem animal de estimação? Utiliza carro?
04 Precisa de armazenamento?
05 Quais serviços utiliza com frequência?
06 Qual a importância da segurança? Há necessidades de acessibilidade?
07 Quanto tempo pretende permanecer no imóvel?
08 Quais áreas comuns realmente agregam valor à sua vida?
As respostas podem revelar que consumidores diferentes comprariam a mesma metragem por motivos completamente distintos. E isso pode refletir no projeto, nos serviços, nas áreas compartilhadas e até na localização.
O que muda para o marketing?
A comunicação também precisa deixar de falar com um personagem único. Se um empreendimento é adequado para pessoas que vivem sozinhas em diferentes fases de vida, talvez não faça sentido construir toda a narrativa em torno de um único estereótipo.
O mesmo produto pode carregar argumentos diferentes conforme a necessidade real do público.
Localização Para alguns, significa mobilidade. Para outros, autonomia. | Condomínio completo Para alguns, conveniência. Para outros, segurança e vida social sem grandes deslocamentos. |
Marketing imobiliário não deveria apenas listar atributos. Precisa fazer a conexão entre atributo e necessidade.
E o que muda na venda?
Existe também uma consequência muito prática para o corretor: antes de apresentar a solução, é preciso entender o problema.
Perguntar por que aquela pessoa está buscando um imóvel, como mora hoje e o que deseja mudar pode ser mais útil do que partir diretamente para metragem, andar e valor.
Duas pessoas interessadas em um apartamento de um dormitório podem estar fazendo compras completamente diferentes. Uma procura:
independência
praticidade
patrimônio
segurança
uma nova fase
O apartamento é o mesmo. A decisão não é |
O mercado precisa acompanhar a transformação dos lares
O crescimento dos domicílios unipessoais é mais do que uma curiosidade demográfica. É um sinal de que a estrutura dos lares brasileiros está mudando.
E toda mudança na maneira como as pessoas vivem acaba chegando ao mercado imobiliário. Na planta. Na localização. Nos serviços. Na comunicação. No atendimento. E na decisão de compra.
Por isso, talvez a principal conclusão não seja simplesmente que mais pessoas estão morando sozinhas. É outra:
Morar sozinho é uma configuração de moradia. Não uma definição de consumidor.
Quanto mais cedo o mercado compreender essa diferença, melhores poderão ser os produtos e as experiências construídas para essas pessoas.
Produto, comunicação e venda Entender quem vai morar no imóvel antes de decidir como apresentá-lo. |
Laila Melo é especialista em marketing imobiliário e cofundadora da Movimobi | Mov Marketing.
Fontes: IBGE — PNAD Contínua, Características Gerais dos Domicílios e dos Moradores 2025; Secovi-SP — Anuário do Mercado Imobiliário; dados sobre domicílios unipessoais e distribuição etária publicados a partir da PNAD Contínua/IBGE.



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