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Fim da escala 6x1 pode deixar os imóveis mais caros? O que muda para a construção

Foto do escritor: Laila Melo
Laila Melo
15 de out.
7 min de leitura

O que já foi aprovado, o que ainda é projeção e quais mudanças o setor pode enfrentar.

Por Laila Melo 15 de outubro de 2026 11 min de leitura


Fonte: Senado Federal. PEC aprovada em dois turnos em 14 de outubro de 2026; segue para promulgação.
Fonte: Senado Federal. PEC aprovada em dois turnos em 14 de outubro de 2026; segue para promulgação.

O fim da escala 6x1 entrou definitivamente na agenda do mercado imobiliário.


O Senado aprovou, em dois turnos, a PEC 221/2019, que reduz a jornada máxima semanal de 44 para 40 horas, sem redução salarial, e prevê dois dias de descanso por semana. O texto segue para promulgação.


A mudança não será imediata. Pelo texto aprovado, a jornada passa primeiro para 42 horas semanais, dois meses após a publicação da emenda, e chega às 40 horas um ano depois dessa primeira redução, totalizando uma transição de 14 meses.


Até aqui, estamos falando de fatos. A partir daqui começa outra discussão:

Quanto essa mudança poderá custar para a construção — e quanto desse custo poderá chegar ao preço dos imóveis?

A construção já começou a fazer essa conta


A Câmara Brasileira da Indústria da Construção, a CBIC, estima que a redução da jornada de 44 para 40 horas possa elevar em até 15% o custo da mão de obra do setor.


Segundo estudo da entidade, manter o mesmo nível de atividade também poderia exigir a contratação de aproximadamente 288 mil trabalhadores adicionais, com custo estimado em R$ 13,5 bilhões por ano.


A Folha, com base nas projeções do setor, informa que o impacto poderia representar aumento de pelo menos 6% no custo total das obras.


O SindusCon-SP trabalha com uma estimativa semelhante, porém ainda mais direta para o comprador: a entidade projeta aumento de aproximadamente 7% no custo das obras residenciais e possível elevação entre 5% e 6% nos preços dos imóveis.


CBIC · mão de obra

até +15%

SindusCon-SP · obras

~ +7%

SindusCon-SP · preços

5% a 6%

Estimativas das entidades do setor. Não são reajustes definidos.


A palavra importante aqui é:

Projeção


Nenhum desses números significa que todos os imóveis ficarão automaticamente 5%, 6% ou 7% mais caros.


São estimativas produzidas por entidades do próprio setor a partir de diferentes hipóteses sobre mão de obra, produtividade, contratação e capacidade das empresas de absorver os novos custos.

O preço final dependerá da resposta de cada empresa — e também das condições do próprio mercado.


Por que quatro horas fazem tanta diferença?


Quando olhamos apenas a redução de 44 para 40 horas semanais, quatro horas podem parecer uma diferença pequena. Em um canteiro de obras, porém, a conta acontece em grande escala.


Uma obra reúne dezenas ou centenas de profissionais, diferentes equipes, fornecedores, etapas dependentes umas das outras e cronogramas definidos com antecedência.



Menos horas disponíveis podem ser compensadas de diferentes maneiras:

01 mais contratação

02 horas extras

03 mudança na organização dos turnos

04 alteração no ritmo da obra

05 adoção de novos métodos construtivos

06 ganhos de produtividade

07 ou uma combinação dessas soluções

O desafio é que todas possuem algum custo. E existe outro problema: a construção já enfrenta dificuldade para encontrar mão de obra qualificada.



Ou seja, não se trata apenas de decidir contratar mais. É preciso encontrar quem contratar.


O impacto pode ser diferente de um empreendimento para outro


Esse é um ponto importante para evitar generalizações. Nem todos os projetos dependem da mão de obra da mesma maneira.


Empreendimentos com maior industrialização, sistemas construtivos mais eficientes ou processos já automatizados podem sentir o impacto de forma diferente de obras que ainda dependem intensamente de trabalho manual no canteiro.


Também existem diferenças importantes entre:

habitação econômica

médio padrão

alto padrão

obras de infraestrutura

reformas

construções industriais


Na habitação popular, por exemplo, a participação da mão de obra no custo total tende a ser maior.


É justamente por isso que entidades da construção demonstram preocupação especial com programas como o Minha Casa, Minha Vida. A CBIC afirma que uma elevação relevante de custos pode reduzir a viabilidade de projetos ou exigir revisão das condições econômicas dos contratos.


Novamente: trata-se de um risco apontado pelo setor, não de uma consequência já confirmada.


O comprador vai pagar essa conta?


Essa talvez seja a pergunta mais óbvia. E a resposta mais responsável é: ainda não sabemos quanto dessa conta chegará ao comprador.

Empresas podem:


absorver parte do aumento

renegociar fornecedores

melhorar processos

alterar produtos

rever margens

aumentar preços

ou combinar todas essas possibilidades

Além disso, o mercado imobiliário não consegue simplesmente repassar qualquer aumento de custo ao consumidor. Existe um limite chamado capacidade de compra.


Um imóvel pode custar mais para produzir, mas, se o consumidor não conseguir financiar aquele novo preço, a incorporadora também terá um problema.


É justamente por isso que a discussão não pode terminar em “a obra ficou mais cara, então vamos aumentar o imóvel.” O desafio empresarial é muito maior.


A pergunta mais importante talvez seja outra


Em vez de perguntar apenas:

“O imóvel vai ficar mais caro?”


eu acredito que o mercado deveria começar a perguntar:

“Como vamos produzir melhor em uma nova realidade de jornada?”

Porque existe uma variável que pode mudar profundamente essa conta: produtividade.


A construção brasileira já discute há anos industrialização, pré-fabricação, construção modular, BIM, mecanização, gestão de canteiro, planejamento integrado e novas tecnologias. A redução da jornada pode aumentar a pressão para que parte dessas mudanças aconteça mais rapidamente.


O próprio SindusCon-SP afirma que a adaptação exigirá estímulo à produtividade e maior industrialização do setor. E talvez esse seja o efeito mais interessante de observar.


A industrialização pode deixar de ser apenas uma tendência


Durante muito tempo, falar em industrialização da construção parecia falar sobre o futuro. Mas mão de obra escassa, custos crescentes e pressão por prazos começam a transformar eficiência em necessidade econômica.


Industrializar não significa simplesmente substituir pessoas por máquinas. Significa reduzir desperdícios, produzir componentes fora do canteiro, padronizar processos, melhorar planejamento e utilizar melhor cada hora de trabalho.

Uma parede produzida de maneira mais eficiente exige menos retrabalho.

Uma instalação planejada digitalmente reduz erros.

Um componente pré-fabricado pode diminuir etapas dentro da obra.

Um cronograma integrado reduz equipes paradas esperando outra fase terminar.

Quando o número de horas disponíveis se torna mais valioso, desperdiçar hora também fica mais caro.


E existe espaço para tecnologia muito antes do robô


Quando falamos em inovação na construção, muita gente imagina robôs construindo prédios. A transformação real provavelmente será muito menos cinematográfica.

Pode começar por:

01

Planejamento mais preciso

02

Gestão digital de equipes

03

Controle de materiais

04

Pré-fabricação

05

Sistemas construtivos racionalizados

06

BIM integrado à execução

07

Logística de canteiro

08

Redução de retrabalho

09

Treinamento e qualificação

São mudanças capazes de aumentar a quantidade de valor produzida por hora trabalhada. Essa discussão passa a ganhar ainda mais importância quando a jornada disponível diminui.


O impacto começa antes do lançamento


Existe também uma consequência para incorporadoras que ainda estão estruturando novos projetos. Uma obra lançada hoje pode atravessar vários anos até sua conclusão.


Isso significa que mudanças trabalhistas, tributárias, financeiras e de custos precisam entrar nas projeções antes mesmo do lançamento.


A mesma equação

Terreno · Projeto · Custo de construção · Mão de obra · Financiamento · Preço de venda · Velocidade comercial


A redução da jornada passa a ser mais uma variável nesse planejamento. E decisões tomadas agora podem definir quanto desse impacto conseguirá ser absorvido durante a execução.


E o corretor?


Para equipes comerciais, o principal cuidado é não transformar projeções em discurso de urgência. Frases como:


“Compre agora porque os imóveis vão subir 6%.”


não são sustentadas pelos dados disponíveis. Existe uma estimativa setorial de possível pressão sobre preços. Isso é diferente de um aumento confirmado.


O papel do corretor pode ser muito mais útil ao explicar que custo da construção é composto por diversas variáveis e que mudanças na mão de obra podem afetar novos projetos ao longo do tempo.

Informar é diferente de criar uma promessa sobre o futuro.

O setor também precisa olhar para quem está no canteiro


Existe um lado dessa discussão que não deveria desaparecer quando olhamos apenas para planilhas. A mudança nasce de um debate sobre jornada, descanso e qualidade de vida dos trabalhadores.


Ao mesmo tempo, a construção depende intensamente dessas pessoas para produzir habitação e infraestrutura. O desafio é justamente encontrar um equilíbrio entre uma nova organização do trabalho e a capacidade de continuar construindo de maneira economicamente viável.


Essa equação não será resolvida apenas aumentando preços. Nem apenas contratando mais pessoas. Produtividade, qualificação e inovação provavelmente terão papel cada vez maior.


O que devemos acompanhar agora


Com a aprovação da PEC, quatro pontos merecem atenção nos próximos meses:

01

Promulgação e início da transição

O primeiro impacto operacional começa dois meses após a publicação da emenda, quando a jornada máxima cai para 42 horas.

02

Negociações coletivas e organização dos canteiros

Empresas e trabalhadores precisarão adaptar escalas, turnos e formas de execução.

03

Evolução real dos custos

As projeções disponíveis são referências importantes, mas será necessário observar dados concretos após a implementação.

04

Produtividade

Talvez seja aqui que esteja a transformação estrutural mais importante. Empresas capazes de produzir melhor poderão absorver uma parte maior da mudança sem simplesmente repassá-la ao preço.


Então, o imóvel vai ficar mais caro?


Ainda é cedo para dar essa resposta.


Existe pressão potencial sobre custos. Existem projeções de aumento. Existe escassez de mão de obra. Mas também existe espaço para produtividade, tecnologia, reorganização e industrialização.


Por isso, reduzir toda essa discussão a uma manchete como “fim da 6x1 vai aumentar o preço dos imóveis” seria simplificar demais um processo muito mais complexo.


A mudança na jornada está aprovada. Agora começa outra fase: descobrir como a construção vai se adaptar a ela.


E talvez o principal efeito não seja apenas uma nova composição de custos. Talvez seja acelerar uma transformação que o setor já precisava enfrentar:

Produzir melhor, com mais tecnologia, planejamento e produtividade.


Porque, quando muda a quantidade de horas disponíveis para construir, muda também o valor de cada hora desperdiçada.

Mercado imobiliário

Acompanhe o que muda na construção, no produto e na venda.



Laila Melo é especialista em marketing imobiliário e cofundadora da Movimobi | Mov Marketing.

Fontes: Senado Federal — PEC 221/2019, aprovada em dois turnos em 14 de outubro de 2026; reduz a jornada máxima de 44 para 40 horas semanais, sem redução

salarial, prevê dois dias de descanso e segue para promulgação.

CBIC — estimativa de aumento de até 15% nos custos de mão de obra e necessidade de aproximadamente 288 mil trabalhadores adicionais para manutenção do atual nível de atividade.

SindusCon-SP — projeção de aumento de aproximadamente 7% nos custos das obras residenciais e possível pressão de 5% a 6% sobre os preços dos imóveis. São projeções da entidade, não reajustes definidos.

 
 
 

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