A eleição não termina nas urnas: o caminho até os juros, o crédito e o imóvel


O primeiro turno já movimentou expectativas sobre juros, dólar e Bolsa. Entenda como esse movimento pode chegar ao crédito imobiliário e à decisão de compra.
No domingo, o Brasil votou. Na segunda-feira, antes mesmo de a B3 abrir, o mercado financeiro já estava recalculando expectativas.
Para quem trabalha com imóveis, esse movimento merece atenção. Não por causa de candidatos, mas por causa do caminho que uma eleição percorre até chegar à mesa onde alguém decide se compra ou não um apartamento.
Este texto não é sobre em quem votar. É sobre o que acompanhar depois do voto.
O que aconteceu no primeiro turno
Com 99,99% das urnas apuradas, os dois candidatos mais votados seguem para o segundo turno em 25 de outubro.
47,03%Flávio Bolsonaro · votos válidos | 45,16%Lula · votos válidos |
Nas primeiras horas após o resultado, gestores ouvidos pela Bloomberg Línea projetavam uma reação inicial com alta de 6% a 7% no Ibovespa, queda de 3% a 4% no dólar e recuo de pelo menos 40 pontos-base nos juros futuros.
Vale um cuidado importante: essas eram projeções de reação, não resultados consolidados. O mercado reage a expectativas, e expectativas mudam até o segundo turno e depois dele. |
A cadeia que liga a urna ao imóvel
Uma eleição não define sozinha quanto vai custar um financiamento. Mas ela influencia uma sequência de expectativas que, aos poucos, chega ao crédito:
Eleição ↓ Expectativa fiscal ↓ Juros futuros ↓ Custo do dinheiro ↓ Crédito ↓ Mercado imobiliário |
Quando o mercado muda a leitura sobre contas públicas, dívida e inflação, os juros futuros se movem. Os juros futuros orientam o custo de captação de bancos e incorporadoras. E esse custo, mais cedo ou mais tarde, aparece na taxa de financiamento, no funding de obra e na decisão de lançar ou segurar um projeto.
Nada disso é automático nem imediato. Mas cada elo influencia o seguinte.
Onde estamos agora
13,75% Selic ao ano · Banco Central do Brasil
O Banco Central já começou a reduzir os juros, mas continua descrevendo o cenário como de elevada incerteza e conduzindo os cortes com cautela diante das expectativas de inflação.
Isso significa que a trajetória dos juros nos próximos anos ainda está em aberto. E qualquer mudança relevante na percepção sobre inflação e contas públicas pode acelerar ou frear esse ciclo.
Por que o crédito imobiliário ficou mais sensível
Existe um fator estrutural que torna essa conversa ainda mais importante em 2026.
Durante muito tempo, o financiamento habitacional brasileiro dependeu principalmente da poupança. Segundo a Abecip, instrumentos como LCI, LIG e o mercado de capitais vêm ganhando participação como fontes de recursos.
Essa diversificação fortalece o sistema, porque amplia o dinheiro disponível para crédito. Mas também deixa o custo desse crédito mais exposto ao que acontece com as taxas de juros de mercado. Em outras palavras: o que se move no mercado financeiro chega mais rápido ao balcão do banco.
A demanda existe
Enquanto isso, o comprador continua ativo. Entre janeiro e julho de 2026, os financiamentos imobiliários com recursos da poupança somaram:
R$ 115,5 bifinanciados com poupança | +36,3%sobre jan–jul de 2025 | 337,8 milimóveis financiados |
Ou seja: não falta interesse em comprar. O que está em jogo são as condições em que essa demanda vai conseguir comprar nos próximos meses.
Quem sente, e como
Comprador
A variável principal é a condição de financiamento: taxa, parcela e quanto da renda o imóvel vai comprometer. Pequenas mudanças nos juros alteram o tamanho do imóvel que cabe no orçamento.
Incorporadora
O efeito aparece no custo de capital, no acesso a funding e na decisão de lançar agora ou esperar mais clareza. Em período de incerteza, é comum que lançamentos sejam reavaliados.
Investidor
O imóvel volta a ser comparado com a renda fixa. Juros altos tornam outras aplicações mais atraentes; a perspectiva de queda reabre a conversa sobre o imóvel como ativo.
O que eu vou acompanhar até o segundo turno
Para quem trabalha no mercado imobiliário, acompanhar uma eleição não deveria se resumir a acompanhar quem lidera uma pesquisa. Até 25 de outubro, eu vou observar:
— Juros futuros: se a reação inicial se sustenta ou se reverte.
— Comunicação do Banco Central: o ritmo dos próximos cortes da Selic.
— Condições dos bancos: se as taxas de financiamento acompanham o movimento.
— Comportamento do comprador: se há antecipação de decisões ou espera por mais clareza.
— Agenda de lançamentos: se incorporadoras aceleram ou seguram novos projetos.
Minha leitura
A política muda expectativas. Expectativas movimentam a economia. E a economia chega até a decisão de comprar um imóvel.
Para incorporadoras e equipes comerciais, isso tem uma consequência prática: em períodos de incerteza, o comprador precisa de mais clareza, não de mais urgência. Comunicação que explica condição, simula cenários e mostra por que aquele imóvel faz sentido para a vida dele tende a funcionar melhor do que a pressão de "última oportunidade".
A eleição acontece nas urnas. Seus efeitos econômicos chegam, aos poucos, a cada etapa da venda.
Até o 2º turno Juros, crédito e imóveis até 25 de outubro. Vou acompanhar cada movimento no Instagram. |
Fontes
Tribunal Superior Eleitoral — resultado do 1º turno, 99,99% das urnas apuradas.
Bloomberg Línea — projeções de gestores para a reação do mercado, 05/10/2026.
Banco Central do Brasil — histórico da taxa Selic.
Abecip — financiamento imobiliário com recursos da poupança, jan–jul 2026.
Abecip — novo modelo do crédito imobiliário.



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